Fratura da clavícula: causas, sintomas e tratamento completo

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Por Dr. Henry Fukuda · Ortopedista especialista em ombro e cotovelo · HC-FMUSP / USP

A fratura da clavícula é a fratura de ombro mais comum em adultos e crianças. Ela representa cerca de 2,6 a 4% de todas as fraturas do corpo humano e ocorre com frequência em quedas, acidentes de bicicleta, esportes de contato e colisões de trânsito. Por essa razão, é uma das lesões que mais chegam aos prontos-socorros ortopédicos. Embora a maioria dos casos tenha tratamento sem cirurgia, alguns precisam de fixação cirúrgica para garantir uma recuperação completa e sem sequelas. Por isso, entender o tipo de fratura e as opções de tratamento é fundamental para tomar a melhor decisão.


O que é a clavícula e por que ela fratura com facilidade?

A clavícula é um osso longo e levemente curvo que conecta o esterno — o osso do peito — ao acrômio da escápula, formando a parte superior e anterior do ombro. Ela funciona como um suporte estrutural do membro superior e transmite as forças entre o braço e o tronco. Por isso, qualquer trauma de alta energia na região do ombro concentra uma grande carga sobre esse osso.

Além disso, a clavícula ocupa uma posição muito superficial — logo abaixo da pele, sem proteção muscular significativa. Nesse sentido, ela absorve diretamente o impacto de quedas sobre o ombro, tornando-se vulnerável mesmo em traumas de moderada intensidade. Por essa razão, ciclistas, jogadores de futebol, lutadores e praticantes de esportes de contato são os grupos mais afetados.


Quais são as causas da fratura da clavícula?

A fratura da clavícula pode ocorrer em qualquer faixa etária, mas os mecanismos de trauma variam conforme o perfil do paciente.

As causas mais frequentes são:

– Queda sobre o ombro ou sobre o braço estendido — mecanismo mais comum em adultos e crianças
– Impacto direto na clavícula — chute, colisão com outro atleta ou queda de bicicleta
– Acidente de trânsito — especialmente em motociclistas e ciclistas
– Trauma ao nascer — a clavícula pode fraturar durante o parto vaginal em bebês de grande porte; nesses casos, a fratura é geralmente mínima e cicatriza sem tratamento específico
– Esportes de contato — rugby, futebol americano, hockey e artes marciais elevam significativamente o risco

Vale destacar que, em idosos com osteoporose, a fratura da clavícula pode ocorrer em quedas de baixa energia — como tropeçar e cair no chão. Nesse grupo, a fragilidade óssea reduz a força necessária para romper o osso.


Quais são os tipos de fratura da clavícula?

O médico classifica a fratura da clavícula conforme a localização no osso. Essa classificação é fundamental para definir o tratamento mais adequado.

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Fratura do terço médio — a mais comum, representando cerca de 80% dos casos. Ocorre na parte central da clavícula, que é a região mais longa e menos protegida. A maioria dessas fraturas consolida bem com tratamento conservador, mas as fraturas com desvio importante ou encurtamento acima de 2 cm têm maior indicação cirúrgica.

Fratura do terço lateral (distal) — representa cerca de 15% dos casos. Ocorre próximo à articulação acromioclavicular e pode ou não estar associada a lesão dos ligamentos coracoclaviculares. Quando há ruptura desses ligamentos, o fragmento proximal da clavícula se eleva e o risco de não consolidação aumenta significativamente — o que frequentemente indica cirurgia.

Fratura do terço medial (proximal) — é a mais rara, representando menos de 5% dos casos. Ocorre próximo à articulação esternoclavicular. Por essa razão, o médico precisa avaliar com atenção a direção do desvio — pois um fragmento posterior pode comprimir estruturas vitais do tórax.


Sintomas da fratura da clavícula

Os sintomas da fratura da clavícula são bastante característicos e surgem imediatamente após o trauma. Entre os principais, estão:

– Dor intensa e localizada na clavícula, que piora com qualquer movimento do braço
– Incapacidade de elevar o braço ipsilateral
– Edema (inchaço) e equimose (roxo) na região da fratura nas primeiras horas
– Deformidade visível — o ombro parece “caído” e, em fraturas com desvio, o osso pode criar uma saliência sob a pele
– Sensação de crepitação ao movimentar o braço — causada pelo atrito entre os fragmentos ósseos
– Em casos graves, dormência ou formigamento no braço — sinal de possível lesão do plexo braquial ou de vasos subclaviculares

Em especial, qualquer dormência, fraqueza no braço ou dificuldade respiratória após um trauma no ombro requer avaliação médica imediata. Isso ocorre porque, embora raras, lesões neurovasculares e pulmonares podem acompanhar fraturas de alta energia na região da clavícula.

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Como o médico faz o diagnóstico?

O diagnóstico da fratura da clavícula começa com a avaliação clínica. O médico examina a região, identifica o ponto de dor máxima à palpação, avalia a deformidade e verifica a função neurológica do membro superior.

Exames de imagem

Radiografia do ombro e da clavícula: é o exame inicial e suficiente para confirmar a fratura na grande maioria dos casos. O médico solicita ao menos duas incidências para avaliar o desvio nos planos anteroposterior e crânio-caudal. Além disso, a radiografia do tórax é solicitada quando há suspeita de pneumotórax ou lesão pulmonar associada.

Tomografia computadorizada (TC): indicada nas fraturas do terço medial, nas fraturas cominutivas complexas e no planejamento cirúrgico detalhado. Além disso, é útil para avaliar a extensão do desvio e o número de fragmentos.

Angiotomografia: indicada quando há suspeita de lesão vascular — como ausência de pulso no membro ou hematoma expansivo — especialmente nas fraturas do terço medial.


Tratamento da fratura da clavícula

O tratamento depende do tipo e da localização da fratura, do grau de desvio, da idade e do nível de atividade do paciente. Por isso, a avaliação individualizada com um especialista em ombro é fundamental antes de definir a conduta.

Tratamento conservador

A maioria das fraturas da clavícula — especialmente as do terço médio sem desvio significativo — tem tratamento sem cirurgia. O médico imobiliza o braço com uma tipoia simples por quatro a seis semanas. Nesse período, o paciente controla a dor com analgésicos e anti-inflamatórios.

A tipoia mantém o braço junto ao corpo, reduz o movimento da clavícula e permite que os fragmentos se consolidem na posição. Enquanto isso, o paciente realiza movimentos suaves do cotovelo, punho e dedos para evitar rigidez nessas articulações.

Em seguida, após a retirada da tipoia, a fisioterapia é iniciada de forma progressiva. O fisioterapeuta trabalha a recuperação da amplitude de movimento do ombro e o fortalecimento do manguito rotador e dos estabilizadores da escápula. Em geral, a consolidação óssea ocorre em oito a doze semanas — mas o retorno completo às atividades esportivas pode levar de três a quatro meses.

Quando a cirurgia é indicada?

A cirurgia está indicada nas fraturas com desvio importante, nas fraturas expostas e em algumas fraturas do terço lateral com lesão ligamentar. As principais indicações são:

– Fratura do terço médio com encurtamento acima de 2 cm ou desvio muito importante entre os fragmentos
– Fratura exposta — quando o fragmento perfura a pele, exigindo limpeza e fixação cirúrgica urgente
– Fratura do terço lateral com ruptura dos ligamentos coracoclaviculares e elevação do fragmento proximal
– Fraturas em “ombro flutuante” — fratura da clavícula associada a fratura do colo da escápula
– Lesão neurovascular associada
– Atletas de alta demanda que necessitam de retorno rápido ao esporte

Como é a cirurgia da clavícula?

A técnica mais utilizada é a fixação com placa e parafusos (osteossíntese). O cirurgião alinha os fragmentos e os fixa com uma placa de titânio colocada sobre o osso, garantindo estabilidade imediata. Dessa forma, o paciente já pode iniciar movimentos suaves do ombro nos primeiros dias após a cirurgia.

Outra opção, especialmente nas fraturas do terço médio, é a haste intramedular — um pino metálico introduzido pelo interior do osso. Essa técnica tem menor cicatriz e menor risco de irritação pelo implante, mas é indicada em casos selecionados.

Em relação à retirada da placa, na maioria dos casos ela não é necessária. A placa permanece definitivamente sem causar sintomas. Contudo, em pacientes jovens com implantes que incomodam ou que praticam esportes de contato, o médico pode indicar a retirada após a consolidação completa — geralmente após um ano da cirurgia.


Recuperação após a fratura da clavícula

A recuperação depende do tipo de tratamento escolhido, mas segue uma progressão semelhante nos dois casos.

0 a 6 semanas — proteção e consolidação: o braço fica em tipoia (no tratamento conservador) ou em imobilização pós-operatória leve (no tratamento cirúrgico). O paciente realiza movimentos suaves de cotovelo, punho e dedos para evitar rigidez.

6 a 8 semanas — início da mobilização do ombro: após confirmação radiográfica da consolidação, a tipoia é retirada e a fisioterapia é iniciada. Exercícios ativos-assistidos para recuperar a amplitude de movimento do ombro são introduzidos progressivamente.

2 a 3 meses — fortalecimento muscular: exercícios de fortalecimento do manguito rotador e dos estabilizadores da escápula ganham intensidade gradual. Nessa fase, a maioria dos pacientes já retoma as atividades profissionais e domésticas sem restrições.

3 a 4 meses — retorno ao esporte: atletas retornam progressivamente ao treinamento específico. O retorno ao esporte de contato é liberado apenas após confirmação radiográfica da consolidação completa e recuperação funcional total do ombro.

Para orientações detalhadas sobre o pré e o pós-operatório, confira as orientações cirúrgicas do Dr. Henry Fukuda.


Complicações possíveis

Embora a maioria dos pacientes se recupere bem, algumas complicações podem surgir ao longo do tratamento. Por isso, o acompanhamento médico regular é importante:

Pseudoartrose (não consolidação): o osso não consolida no prazo esperado. Ocorre com maior frequência nas fraturas do terço lateral com desvio e nas fraturas do terço médio com encurtamento importante. Nesse caso, a cirurgia é indicada para estimular a cicatrização óssea.

Consolidação viciosa: o osso consolida em posição inadequada, gerando deformidade e, eventualmente, limitação funcional. Por isso, fraturas com encurtamento importante têm indicação cirúrgica mais ampla nos últimos anos.

Lesão do plexo braquial: rara, mas possível em fraturas de alta energia. Causa dormência, fraqueza e alterações de sensibilidade no braço. Na maioria dos casos, o nervo se recupera espontaneamente.

Irritação pelo implante: a placa pode causar desconforto local, especialmente em pacientes mais magros. Nesse caso, a retirada da placa após a consolidação resolve o problema.

Segundo a Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), o acompanhamento com um especialista em ombro após a fratura da clavícula reduz significativamente o risco de complicações e garante os melhores resultados funcionais a longo prazo.


Fratura da clavícula em crianças e bebês

Em crianças, a fratura da clavícula é muito comum e tem excelente prognóstico. Isso ocorre porque o periósteo — a membrana que envolve o osso — é muito mais espesso em crianças, o que facilita e acelera a consolidação. Em geral, o tratamento é conservador com tipoia por duas a quatro semanas, e a criança retorna às atividades normais em seis semanas.

Nos recém-nascidos com fratura ao nascimento, muitas vezes o diagnóstico é tardio — feito quando os pais percebem que o bebê evita mover um dos braços. Nesses casos, a fratura já está em fase de consolidação e não exige nenhum tratamento específico além de cuidados no manuseio.


Dr. Henry Fukuda

Sofreu um trauma no ombro e está com dor intensa na região da clavícula? Agende sua consulta com o Dr. Henry Fukuda — especialista em cirurgia do ombro e cotovelo pelo HC-FMUSP e membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês.

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