Por Dr. Henry Fukuda · Ortopedista especialista em ombro e cotovelo · HC-FMUSP / USP
A tendinite do bíceps é uma das causas mais comuns de dor na parte frontal do ombro. Ela ocorre quando o tendão do bíceps — especialmente a porção longa, que passa dentro da articulação do ombro — sofre inflamação por sobrecarga ou desgaste. Por essa razão, a condição é frequente em atletas, praticantes de musculação e em pessoas que realizam movimentos repetitivos com os braços. Embora seja uma inflamação reversível, a tendinite do bíceps pode evoluir para lesões mais graves quando não tratada adequadamente. Por isso, reconhecer os sintomas precocemente faz toda a diferença.

O que é a tendinite do bíceps?
O músculo bíceps possui duas origens na região do ombro: a cabeça longa e a cabeça curta. A cabeça longa é a mais vulnerável — ela atravessa a articulação do ombro e desliza por um canal estreito chamado sulco bicipital, envolta por uma bainha de líquido que reduz o atrito. Portanto, quando esse tendão sofre sobrecarga repetitiva, a bainha se inflama e o deslizamento deixa de ser suave. Com isso, surgem dor, sensibilidade e limitação de movimento.
Vale destacar que a tendinite do bíceps raramente aparece de forma isolada. Na maioria dos casos, ela se associa a outras condições do ombro — como lesão do manguito rotador, síndrome do impacto subacromial ou lesão SLAP do labrum. Por isso, a avaliação completa do ombro é indispensável para definir o tratamento correto.
Quais são as causas da tendinite do bíceps?
A tendinite do bíceps pode ter origem em sobrecarga aguda ou em desgaste cumulativo ao longo do tempo. Entre as causas mais frequentes, estão:
– Movimentos repetitivos acima da cabeça: natação, tênis, vôlei e arremesso sobrecarregam repetidamente o tendão durante os treinos.
– Musculação com técnica inadequada: exercícios como rosca bíceps, supino e desenvolvimento realizados com carga excessiva ou amplitude incorreta aumentam o estresse sobre o tendão.
– Desequilíbrio muscular: fraqueza do manguito rotador e dos estabilizadores da escápula transfere carga excessiva para o tendão do bíceps durante os movimentos do braço.
– Instabilidade do tendão no sulco bicipital: em alguns pacientes, o tendão da cabeça longa salta repetidamente para fora do seu canal, causando atrito e inflamação crônica.
– Envelhecimento e degeneração: a partir dos 40 anos, o tendão perde elasticidade e resistência. Por isso, o desgaste degenerativo é uma causa frequente em pacientes de meia-idade e idosos.
Além disso, condições inflamatórias sistêmicas — como artrite reumatoide — também podem afetar a bainha do tendão do bíceps e causar tenossinovite crônica.
Sintomas da tendinite do bíceps
Os sintomas costumam se desenvolver de forma gradual. No início, a dor aparece apenas durante atividades específicas. Com o tempo, ela se torna mais constante e limita as atividades do dia a dia. Os principais sintomas são:
– Dor na parte frontal do ombro, localizada no trajeto do sulco bicipital
– Piora da dor ao levantar o braço, puxar objetos ou girar o antebraço
– Sensibilidade ao toque na região anterior do ombro
– Estalo ou sensação de “clique” durante o movimento do ombro
– Fraqueza ao dobrar o cotovelo ou ao supinar o antebraço
– Dor noturna ao deitar sobre o lado afetado
Em especial, vale destacar que a dor da tendinite do bíceps pode irradiar para o braço e ser confundida com bursite do ombro ou tendinite do manguito rotador. Por isso, o diagnóstico diferencial com um especialista é fundamental.

Como o médico faz o diagnóstico?
O diagnóstico começa com a avaliação clínica detalhada. O médico investiga o histórico de atividades, o tipo de dor e os movimentos que a provocam. Em seguida, realiza manobras específicas para identificar a origem do sintoma.
Exame físico
Os testes mais utilizados são o Speed test — em que o médico aplica resistência ao braço estendido enquanto o paciente tenta elevá-lo — e o Yergason test — em que a resistência é aplicada à supinação do antebraço. Quando positivos, ambos reproduzem a dor característica da tendinite do bíceps. No entanto, o médico sempre analisa o conjunto dos achados, pois outras lesões podem causar resultados semelhantes.
Exames de imagem
– Ultrassonografia do ombro: é o exame de maior utilidade para a tendinite do bíceps. O médico visualiza o tendão em tempo real, avalia o líquido na bainha, identifica espessamento, rupturas parciais e instabilidade durante o movimento.
– Ressonância magnética (RM): indicada quando há suspeita de lesões associadas — como ruptura do manguito rotador ou lesão do labrum. Além disso, fornece imagens detalhadas de todas as estruturas do ombro.
– Radiografia do ombro: útil para excluir causas ósseas e avaliar o espaço subacromial. Ela não mostra o tendão diretamente, mas complementa a avaliação clínica.
Tratamento da tendinite do bíceps
O tratamento depende da gravidade dos sintomas, da causa subjacente e do nível de atividade do paciente. Na maioria dos casos, a abordagem conservadora é suficiente para recuperar a função do ombro.
Tratamento conservador
O tratamento conservador é a primeira linha de abordagem e combina repouso relativo, controle da inflamação e reabilitação funcional.
Repouso relativo e modificação das atividades: o paciente reduz ou suspende temporariamente os movimentos que provocam dor. Nesse sentido, não é necessário imobilizar completamente o braço — apenas evitar os gestos que sobrecarregam o tendão.
Medicamentos anti-inflamatórios: o médico prescreve anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) para controlar a dor e a inflamação nas fases agudas. Em alguns casos, aplica crioterapia (gelo) nos primeiros dias.
Infiltração guiada por ultrassonografia: quando a dor é intensa e limita a progressão na fisioterapia, o médico realiza uma infiltração com corticoide diretamente na bainha do tendão, guiada por ultrassom. Dessa forma, o medicamento chega com precisão ao local da inflamação, sem atingir estruturas adjacentes.
Fisioterapia: é o pilar do tratamento. O fisioterapeuta fortalece o manguito rotador e os estabilizadores da escápula, corrige desequilíbrios musculares e orienta a progressão de carga nas atividades esportivas. Além disso, técnicas de mobilização neural e alongamento da cadeia anterior complementam o protocolo.
Em geral, o tratamento conservador bem conduzido traz melhora em seis a oito semanas. Caso contrário, o médico reavalia o diagnóstico e considera opções cirúrgicas.
Quando a cirurgia é indicada?
A cirurgia está indicada nos casos que não respondem ao tratamento conservador após três a seis meses, nas rupturas parciais extensas do tendão e nos casos de instabilidade persistente do tendão no sulco bicipital. As técnicas mais utilizadas são:
Tenotomia do bíceps: o cirurgião secciona o tendão da cabeça longa no ponto de inserção no labrum, eliminando a fonte de dor. Após o procedimento, o músculo desce levemente — o chamado sinal de Popeye — mas a força e a função do braço são preservadas na grande maioria dos casos. Essa técnica é mais indicada em pacientes acima de 50 anos e menos ativos fisicamente.
Tenodese do bíceps: o cirurgião reinsere o tendão em uma nova posição — geralmente no úmero proximal — mantendo o comprimento do músculo e evitando a deformidade estética. Nesse sentido, é a técnica preferida em pacientes jovens e atletas que valorizam a aparência e a força do bíceps.
Ambas as técnicas são realizadas por artroscopia, com excelentes resultados e rápida recuperação. Para entender melhor como funciona a cirurgia do ombro por artroscopia, acesse o artigo sobre artroscopia do ombro.
Tendinite do bíceps versus ruptura do tendão: qual a diferença?
A tendinite é uma inflamação reversível — a estrutura do tendão está preservada. Por outro lado, quando o tendão sofre dano estrutural e se rompe parcial ou completamente, o quadro muda de natureza e exige avaliação diferente. Nesse sentido, a tendinite não tratada pode evoluir para ruptura do tendão ao longo do tempo. Para entender as diferenças entre as duas condições, confira o artigo completo sobre ruptura do tendão do bíceps.
Como prevenir a tendinite do bíceps?
Algumas medidas simples reduzem consideravelmente o risco de desenvolver ou recidivar a tendinite do bíceps:
– Fortalecer continuamente o manguito rotador e os estabilizadores da escápula
– Progredir a carga nos treinos de forma gradual, sem saltos bruscos de volume ou intensidade
– Aquecer adequadamente antes de atividades físicas com movimentos acima da cabeça
– Corrigir a técnica nos exercícios de musculação, especialmente rosca bíceps e supino
– Respeitar a dor — não insistir em treinar com dor persistente no ombro
– Buscar avaliação ortopédica ao primeiro sinal de dor anterior no ombro que não melhore em poucos dias
Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (SBCOC), o diagnóstico precoce da tendinite do bíceps é o principal fator que evita a progressão para rupturas e a necessidade de cirurgia.

Está sentindo dor na frente do ombro que piora ao levantar o braço ou praticar exercícios? Agende sua consulta com o Dr. Henry Fukuda — especialista em cirurgia do ombro e cotovelo pelo HC-FMUSP e membro do corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês.
