A lesão SLAP do ombro é uma das condições que mais afetam atletas e pessoas fisicamente ativas. Embora seja menos conhecida que a tendinite ou a bursite, ela pode causar dor intensa, instabilidade e limitação funcional significativa. Por essa razão, entender o que é essa lesão — e quando buscar tratamento — faz toda a diferença para uma recuperação eficaz.

O que é a lesão SLAP do ombro?
A sigla SLAP vem do inglês Superior Labrum Anterior to Posterior, que significa “labrum superior de anterior para posterior”. Portanto, trata-se de uma lesão do lábrum glenoidal — um anel de fibrocartilagem que circunda a cavidade do ombro e serve para aprofundá-la, aumentando a estabilidade da articulação.
A região superior do labrum é o ponto de fixação da cabeça longa do tendão do bíceps. Assim, quando essa área se rompe ou se destaca do osso, o tendão do bíceps perde parte de sua ancoragem e a articulação se torna instável. Como consequência, surgem dor, estalos e sensação de “falseio” no ombro durante os movimentos.
Quais são os tipos de lesão SLAP?
A lesão SLAP foi classificada originalmente em quatro tipos. Cada um deles apresenta características e implicações de tratamento distintas:
Tipo I
Degenerativo
O labrum apresenta sinais de desgaste, mas ainda está fixado ao osso. Comum em pacientes mais velhos e muitas vezes assintomático.
Tipo II
Desinserção (mais comum)
O labrum se destaca do osso junto com a ancoragem do bíceps. É o tipo mais frequente e que exige reparação cirúrgica com maior frequência.
Tipo III
Alça de balde
O labrum rompe em formato de “alça de balde”, mas a inserção do bíceps permanece intacta.
Tipo IV
Com extensão ao bíceps
A ruptura se estende para dentro do tendão do bíceps. É o tipo mais complexo e geralmente exige cirurgia.
Além desses quatro tipos, estudos mais recentes descreveram outros subtipos, chegando até o tipo X em algumas classificações. No entanto, os tipos I a IV ainda são os mais utilizados na prática clínica diária.
Quais são as causas da lesão SLAP?
A lesão SLAP pode ter origem traumática ou degenerativa. De fato, as causas mais comuns são situações que submetem o labrum a forças compressivas ou de tração:
- Queda com o braço estendido: o impacto comprime o labrum entre a cabeça do úmero e a cavidade glenoidal, o que provoca a ruptura de forma aguda.
- Movimento de tração brusca no braço: tentar segurar um objeto pesado em queda ou ser puxado pelo braço pode destacar o labrum. Por isso, esse mecanismo é comum em trabalhadores manuais.
- Movimentos repetitivos de arremesso: atletas de beisebol, handebol, natação e tênis submetem o labrum a estresse repetitivo. Sobretudo durante a fase de desaceleração do arremesso, a ancoragem do bíceps sofre tração intensa.
- Degeneração com a idade: à medida que o paciente envelhece, o labrum perde elasticidade e pode se desgastar gradualmente, mesmo sem histórico de trauma.
Além disso, a lesão SLAP frequentemente aparece em associação com outras condições do ombro, como a luxação do ombro e as lesões do manguito rotador. Por essa razão, a avaliação médica completa é indispensável para identificar todas as lesões presentes.
Sintomas da lesão SLAP do ombro
Os sintomas da lesão SLAP podem ser sutis e frequentemente se confundem com outras condições do ombro. No entanto, alguns sinais são bastante característicos:
- Dor profunda no ombro, difícil de localizar com precisão
- Piora da dor com movimentos acima da cabeça — por exemplo, ao arremessar, nadar ou levantar objetos
- Estalo ou “click” audível durante o movimento do ombro
- Sensação de instabilidade ou de que o ombro vai “sair do lugar”
- Fraqueza ao girar o braço ou ao realizar movimentos de força
- Dor ao dirigir, especialmente ao apoiar o braço na janela do carro
Vale destacar que, em muitos pacientes, a lesão SLAP aparece como um achado incidental na ressonância magnética, sem causar sintomas relevantes. Portanto, o tratamento deve ser guiado pelos sintomas clínicos — e não apenas pelo resultado do exame de imagem.

Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da lesão SLAP do ombro é um dos mais desafiadores na ortopedia. Isso ocorre porque os sintomas são vagos e facilmente confundidos com síndrome do impacto subacromial ou tendinite do ombro. Por essa razão, a avaliação clínica detalhada é sempre o primeiro passo.
Exame clínico
O ortopedista utiliza manobras específicas para provocar e identificar a lesão. Entre os testes mais utilizados estão o teste de O’Brien, o Speed test e o Compression-rotation test. No entanto, nenhum teste isolado tem sensibilidade perfeita. Por isso, o diagnóstico sempre considera o conjunto de achados clínicos e de imagem.
Exames de imagem
- Artrorressonância magnética (Arthro-RM): é o exame de maior precisão para a lesão SLAP. Isso acontece porque o contraste injetado dentro da articulação aumenta significativamente a visibilidade do labrum.
- Ressonância magnética convencional: útil para avaliar estruturas associadas — manguito rotador, tendão do bíceps e cartilagem. No entanto, pode subestimar lesões pequenas do labrum.
- Artroscopia diagnóstica: considerada o padrão-ouro para confirmar a lesão. Além disso, permite já realizar o tratamento cirúrgico no mesmo ato operatório, se necessário.
Tratamento da lesão SLAP do ombro
Tratamento conservador
A maioria das lesões SLAP — especialmente os tipos I e as lesões degenerativas em pacientes com menor demanda física — responde bem ao tratamento não cirúrgico. Nesse caso, a abordagem envolve:
- Repouso relativo das atividades que provocam dor
- Anti-inflamatórios e analgésicos para controle dos sintomas
- Infiltração intra-articular guiada por ultrassonografia, quando necessário
- Fisioterapia focada no fortalecimento do manguito rotador e dos estabilizadores da escápula
- Reabilitação funcional com retorno gradual ao esporte
Em geral, o tratamento conservador é mantido por três a seis meses antes de se considerar a cirurgia. Portanto, a adesão à fisioterapia é determinante para o sucesso dessa abordagem.
Tratamento cirúrgico — artroscopia do ombro
A cirurgia está indicada quando o tratamento conservador não traz melhora suficiente ou quando a lesão é do tipo II e IV em atletas jovens de alta demanda física. Nesses casos, o procedimento de escolha é a artroscopia do ombro, uma técnica minimamente invasiva que permite o reparo do labrum com alta precisão.
Durante a artroscopia, o cirurgião reinsere o labrum ao osso com âncoras absorvíveis, restaurando a ancoragem do tendão do bíceps. Em consequência, a estabilidade da articulação é recuperada e os sintomas desaparecem progressivamente. Já nos casos de lesão tipo IV extensa, pode ser indicada a tenodese do bíceps — procedimento que refixe o tendão em uma posição mais favorável.
Para entender melhor como funciona esse tipo de cirurgia, acesse o artigo completo sobre artroscopia do ombro.
Recuperação após a cirurgia
Após a artroscopia, a recuperação da lesão SLAP exige paciência e comprometimento com a fisioterapia. As fases gerais são:
- 0 a 6 semanas: o braço fica em tipoia para proteger o labrum reparado. Nessa fase, apenas exercícios leves de mobilidade são realizados.
- 6 a 12 semanas: em seguida, inicia-se o fortalecimento progressivo do manguito rotador e dos estabilizadores da escápula.
- 3 a 6 meses: gradualmente, o paciente retorna às atividades funcionais e aos treinos de musculação leve.
- 6 a 12 meses: finalmente, atletas arremessadores retornam ao esporte de alto desempenho — desde que a reabilitação tenha sido completa.
Além disso, seguir as orientações pós-operatórias é fundamental para o sucesso da cirurgia. Confira as orientações cirúrgicas do Dr. Henry Fukuda para se preparar da melhor forma.

Lesão SLAP e o atleta arremessador
Atletas de arremesso merecem atenção especial. Nesse grupo, a lesão SLAP do tipo II é muito frequente e o retorno ao esporte após a cirurgia é mais lento e incerto. Por esse motivo, muitos especialistas preferem iniciar com tratamento conservador intensivo antes de indicar a cirurgia — sobretudo em atletas de elite.
Além disso, a avaliação biomecânica do gesto esportivo é indispensável para evitar recidivas. Isso ocorre porque defeitos técnicos no arremesso, desequilíbrios musculares e restrições de mobilidade contribuem diretamente para o desenvolvimento da lesão. Portanto, corrigir esses fatores é tão importante quanto o tratamento da lesão em si.
Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (SBCOC), o tratamento da lesão SLAP em atletas deve ser individualizado e conduzido por um especialista com experiência em cirurgia artroscópica do ombro.